Fui ao W.C. das ex-galerias abandonadas. Uma parte das lâmpadas estava esvaída, dando ao espaço uma vibração insalubre. As cabinas, com excepção de uma, usavam a ausência de portas para exibir a todos, temerários e temerosos por igual, o espectáculo das pequenas e médias misérias humanas. A excepção com porta estava, na ocasião, ocupada por alguém que, com vigoroso cometimento, se encarregava de a não fazer destoar do conjunto. O cheiro, abominável, era impossível de suportar por mais que uns segundos com o nariz a descoberto. O chão, uma extensa poça rasa nascida do descuido e da agonia da canalização. Escolhi o terceiro mictório a contar da entrada. Estava entupido, cheio até ao rebordo com um bom litro de urina escura. Não sei se ainda está assim e, caso esteja, por quanto tempo mais estará: desconheço o carácter da manutenção daquela sentina, mas aparenta ter um período de retorno geológico. Ou então é só um medo religioso de interferir na Grande Máquina Cósmica. Escolhi o espaço mesmo ao lado do «mamo bem» seguido de um velho nove três vagamente obliterado pelos vapores corrosivos. Um pouco abaixo do «sou gay até 30 anos» adido a um nove seis que tem atravessado os anos sem mácula. Usei tinta para acetatos de boa marca, daquelas que não saem nem por nada. Não que dê como provável a hipótese da sua remoção: a lógica dos usufrutuários é de acumulação, não de substituição. Mas fui bem ensinado a jogar pelo seguro. Voltarei lá para verificar o estado do teu número de telemóvel todas as semanas. Certo de que sabes que só me ocupa o teu bem-estar. Sempre à sexta-feira. Fazendo disto minha missão. Às 18:52. Em ponto. Faça sombra ou faça sol. |