A rua estava cheia de buracos, alguns deles crateras. Como era uma rua onde passavam muitos ceguinhos por causa de uma associação que existe nas proximidades, tiveram de a arranjar, porque os ceguinhos, ou alguém em seu nome, resolveu apresentar uma reclamação à câmara. O que nos valeu foram os ceguinhos, ou alguém em seu nome. O procedimento fez escola: agora, de cada vez que alguém reclama por causa das crateras na sua rua, a câmara manda uns estudantes à bolonhesa contar os ceguinhos que por lá passam todos os dias.
Esse número integra depois, juntamente com outros, uma fórmula de cujo resultado se retira a prioridade dada à requalificação daquela via pública face àquela habitadas por pessoas que não precisam de ser ceguinhas para terem a rua arranjada. As coisas não são assim tão simples, precisamente porque há outros factores em jogo (o número de criancinhas, o número de velhinhos, etc.), mas uma coisa é certa: os ceguinhos têm uma ponderação desproporcionada. Quem chega primeiro, coisa e tal. Quem vai por arrasto, é assim a vida.
Isto, claro, já fez surgir situações de aproveitamento pouco escrupuloso da fórmula. Há quem agora se dedique a deslocar ceguinhos de um lado para o outro da cidade, em carrinhas fretadas para o efeito, para que eles possam passar repetidamente nos vários sítios onde os estudantes estão a fazer as contagens. Olha, ao menos sempre passeiam, coitadinhos. As estatísticas da câmara são assustadoras. O número de velhinhos e de criancinhas também está a aumentar. Já ninguém sabe o que lhes há-de fazer. Não há quem nos valha. |