As traças foram-me ao fato de Rato Míquei que tinha guardado no guarda-fatos. Com tanta coisa para comer, tinham de escolher aquilo. Isso é que me lixa. Nunca o usei, é certo, mas sempre por bons motivos. Neste último Carnaval, porque estava um bocado achacado e resolvi ficar em casa. No do ano passado, porque não cabia dentro dele. No do ano anterior, porque me ficava ridiculamente largo. Nos outros, já não me lembro, não retenho informação com mais de três anos. Na verdade são três anos, cinco meses e vinte e quatro dias, mas, para o efeito, vai dar ao mesmo, porque o Carnaval de há três anos foi a oito de Fevereiro e, portanto, está para sempre perdido. Lembro-me do essencial: que foi por uma boa razão. É quanto me basta. Agora, para o ano que vem, já não posso ter a esperança de ser desta que reúno as condições necessárias para fazer a tão ansiada parelha com o Pateta. Ele não diz nada, mas eu sei que, a cada Carnaval que passa, ele veste o fato e espera que eu possa fazer-lhe companhia na palhaçada. Comprar outro? Isso não é assim. Um fato de Rato Míquei não é apenas um bocado de tecido que se enfia no guarda-fatos à espera das traças. Um fato de Rato Míquei é aquele ou não é nenhum. |