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Problemas de agenda
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Não, não era para levarem a sério. Quer dizer...
Eu sabia que era um assunto sério, e por isso é que eu...
Achei que devia ter alguns cuidados e portanto...
Mas não pensei que tivesse tanta importância...
Ou melhor, por pensar que tinha mais importância do que realmente tinha...
Não, tem muita importância, tem mesmo muita importância, o que eu disse na altura é que não tinha importância porque quando o disse não pensei que o assunto tivesse uma importância maior do que a importância daquilo que eu estava a dizer...
Não é que eu alguma vez tenha considerado que o que eu disse podia ter muita importância...
Quer dizer, sim, talvez naquele momento, senão não teria considerado que aquilo que eu estava a dizer tinha mais importância, que não tinha, do que...
Até porque o assunto era sério, claro que era sério...
Não, não, claro que não! Não foi por dinheiro, eu nunca...
Bom, sim, ganhei algum dinheiro, sim, mas mesmo que não tivesse ganho dinheiro nenhum teria...
Não teria sido a primeira vez...
Não, também não foi por mal, não foi por mal nem por dinheiro, nem...
Não está a compreender...
Porquê? Ora, porquê...
Porque...
É um bocado difícil de explicar, foi uma coisa que eu pensei...
Não, não é nada de pessoal, eu é que não consigo explicar bem por que o fiz, por que decidi fazer aquilo naquele momento e dizer aquelas coisas...
Sim, persisti ao longo de uns dias...
Meses? Também não é preciso exagerar, não foram...
Aaaaaah...
Sim, realmente foram meses, pois, não tinha ideia que tinha sido tanto tempo...
O tempo hoje em dia passa a correr, era capaz de jurar...
Continuei...
Pois, não foi só naquele momento, foi...
O resto do tempo, bom, o resto do tempo pensei que...
Bom, pensei quer era para pensar a mesma coisa que tinha pensado inicialmente, não tive razões para pensar que...
Sim, é verdade, também não tive razões para pensar aquilo que pensei inicialmente, mas depois não tive razões para deixar de pensar o que tinha pensado inicialmente e então continuei a pensar a mesma coisa que tinha pensado inicialmente por mais...
Sim, houve uma ou duas ocasiões em que me podia ter...
Cinco? Então, mas...
Ah, essas, sim realmente...
Pois, podia ter perguntado, realmente, mas sabe como é, eu também não queria incomodar...
Incomodei mais, sim, é verdade, mas na altura pensei que seria incómodo...
Bom, não, não é isso...
Não, não pensei...
Ou melhor, pensei no incómodo que poderia representar eu pensar em perguntar como havia de pensar acerca do assunto que, como lhe disse, para mim não era tão importante como eu pensava que era para os outros, não...
Não era tão importante como os outros para...
Bom, foi...
Foi...
Foi uma falta de...
Foi um excesso de... |
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Summertime 18
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A porta abrir-se-ia, a luz entraria na sala. Seria a única luz na sala, a mesma luz que, instantes antes, só havia conseguido entrar, numa parte insignificante e invisível a olhos humanos, por baixo dessa mesma porta. Com a porta aberta e a luz lá dentro, as sombras ocupariam os seus postos e eu, nesse momento, sairia da sala para garantir o equilíbrio. Mas não, não aconteceu nada. A porta abriu-se e não aconteceu nada, somente passou a estar aberta uma porta que antes estava fechada, um rectângulo de luz inconsequente onde antes tinha havido uma pequena pausa para a noite.
Gottfried Helnwein, Los Caprichos 9, 2006 |
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Registamos o facto com grande satisfação
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Está cada vez mais parecido com o papá, está, está. Mas também vai buscar alguma coisa ao irmão (desavindo), à senhora das limpezas (uma crida, eternamente), ao rapaz dos jornais (de que gosta tanto, tanto, tanto), à menina dos bolos (de que já gostou tanto, tanto, mas menos), ao senhor da livraria (de que já não gosta quase nada). Também é capaz de sair um bocadinho àquele tio que deu para o torto, mas só na parte que deu para o direito, que não se sabe bem de onde foi puxada, que aquilo era tudo uma gente que ai Jesus. Mas à mamã é que não sai nada, graças ao deus. |
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Uma cidade amarfanhada
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Não é regionalismo fácil, mal a que me julgo imune, é pura realidade: há coisas que acontecem no resto do país que só não são notícia porque não é em Lisboa ou no Porto que têm o seu palco. Qualquer percalço entre um agente cultural e os agentes públicos de um dos dois «grandes municípios» portugueses (embora o do Porto já tenha visto dias de maior importância no ranking nacional...) dá imediatamente lugar a primeiras páginas e aberturas de telejornais, ao passo que incidentes de gravidade igual ou superior ocorridos na famosa «província», só têm os mesmos direitos mediáticos se vierem acompanhados de mortos e feridos – o que, para o mal e para o bem, não tem sido costume. É também por isto que deviam ler este longo texto, que também podem, e devem, subscrever. Acreditem: é tudo verdade. |
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O povo é sereno
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Eu não iria ao ponto de dizer que o Sr. Ministro Correia de Campos devia ser remodelado. Acho que substituí-lo seria mais que suficiente. |
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Substâncias
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Morreu Brad Renfro, actor e toxicodependente (por esta ordem), 25 anos, causas ainda por determinar, que me trouxe à memória o Ghost World, filme que será sempre mais recordado por ter lançado definitivamente a Scarlett contra a parede do que por me ter dado a conhecer Daniel Clowes, de cujo vácuo entretanto me tornei um apreciador relativamente estável. Parece que nos vai aparecer um dia destes à frente, ainda em vivo, num último filme cujo argumento é baseado num livro do Brett Easton Ellis que li há uma data de anos e que achei um bocado para o coiso, embora com a sua piada. Mas pode ter sido do tempo. Quase ao mesmo tempo descobri, na sequência de uma cadeia de pensamentos que seria excessivo vir para aqui explicar, que o Richard Widmark, meu acompanhante em tantas tardes solitárias a preto & branco, ainda vive. Tem 93 anos e mora em Roxbury, Connecticut, um simpático condado com todo o aspecto de sítio em que eu próprio também quererei viver quando tiver 93 anos. |
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República Exponencial da China
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Até esta tristeza indolor que percorre as ruas da cidade sob a forma de música impopular, tem, na sua origem mais funda, o aumento exponencial do consumo na República Popular da China. O torpor com que me falas e que em muito ultrapassa a imobilidade que lhe antecedeu, e a ela a displicência, alimenta-se do aumento exponencial do consumo na República Popular da China. A linha de comboio percorrida a passo de fuga inseguro por entre o nevoeiro foi abandonada, como tudo o que foi abandonado, por causa do aumento exponencial do consumo na República Popular da China. Este frio que me importava atribuir à qualidade da desconstrução para não o ver assacado à solidão tem, afinal, sede no aumento exponencial do consumo na República Popular da China. Que bom. Sempre fico mais descansado. |
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Masturbatorium
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Alguns — dois — leitores — um e uma — fazem-me notar que, apesar de me encontrar triplamente bem posicionado para o fazer, ainda não dissertei acerca da entrada em vigor da nova lei do tabaco, das mais que previsíveis peripécias que a têm rodeado e das birras, também elas pouco surpreendentes, que originou.
A leitora vai ao ponto de afirmar que, precisamente por eu estar numa posição privilegiada e acessível a poucos, comentar a realidade que resulta da aplicação ou não aplicação desta lei é uma obrigação a que não devo furtar-me com o pretexto da falta de vocação que este espaço tem para o uso de comentário à actualidade, seja lá isso o que for. Avança mesmo que a minha persistência em ignorar o mundo dos meus dias não faz de mim um criatura superior aos reles pormenores da vida quotidiana, mas apenas, e cito, «um molusco pusilânime, pedante e onanista».
O leitor fica-se, amavelmente, pelos seus melhores cumprimentos. |
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Talvezes
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— Agora que já nos fazíamos à seca. — É verdade, já viu? — Um balde de água fria. — Gelada. — E eu a querer ir ao Alentejo. — Ai queria lá ir, era? — Era. — Mas agora não é a melhor altura. — Mas também não seria má... — ...se ao menos... — ...se parecesse com outra. — Uma pessoa conforma-se. — Talvez às vezes. — Muitas vezes. — Muitas, demais. — Mas... — Não. — Podia ser. — Pois podia, mas não. — Compreendo. Eu também não. — Hum? |
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Chunnel
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Era tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, tão blasé, que só enviava emails com detachments. |
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Boleias
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Deram-me uma daquelas molduras para duas fotografias (creio que também as há para três, quatro, etc.) que se colam ao tabliê do carro. Na verdade, podem ser coladas a qualquer superfície seca que tenha sido convenientemente lavada antes da aposição do adesivo que a moldura traz no seu verso. E então colei-a ao tabliê. No espaço da esquerda coloquei uma fotografia da minha falecida, tirada no velório; no espaço da direita coloquei uma fotografia do Ministro Teixeira dos Santos, que recortei do Público de sexta-feira passada. Algumas pessoas acharam isto estranho, muitas até doentio, outras apenas demencial. |
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Iqaluit
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Apesar da subida da temperatura, que veio como brinde na depressão cavada, e do convector no máximo, sonhei com a minha morte em Iqaluit, a terra sem árvores, quando adormeci a seguir ao almoço. É costume durante o Inverno, este até é melhorzinho que aquele que tenho à noite, quando como rojões à minhota, em que sou estrangulado com um fio de nylon pelo encarregado de negócios da embaixada da Máfia Calabresa no Nunavut. A minha médica de família diz que é da automedicação, que tenho de parar de tomar xanaxes como se fossem os valiuns que deixei de tomar como se fossem os lorenines que deixei de tomar como se fossem os cymerions que deixei de tomar como se fossem os ansilores, que deixei de tomar como se fossem os kaineveres que deixei de tomar como se fossem os bromalexes que deixei de tomar como se fossem os libriuns que deixei de tomar como se fossem aqueles placebos ridículos dos sedoxiles. E as outras porcarias que ela nem sonha e que, evidentemente, nunca deixei de tomar. É a esta gente que está entregue o Serviço Nacional de Saúde. Depois queixam-se que o querem privatizar, esquartejar, encerrar. Incapaz de me mexer, o gelo torna-se lentamente a minha urna, eu torno-me parte de um glaciar e na Primavera sou derretido para o oceano, de onde os ocupantes de uma embarcação tradicional me recolhem para fins que não seria próprio enunciar neste espaço. Talvez devesse pedir um empréstimo e comprar um daqueles aquecedores de mica que custam aproximadamente o produto interno bruto da Libéria, onde há calor com fartura e, convenientemente, a esperança média de vida não justifica a compra de bens não essenciais. Diz que gastam pouco, que não queimam o ar e que isso é bom por causa das bactérias. |
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Programa operacional
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Não foi bem do Céu que caiu, foi do Quadro Comunitário de Apoio, mas como a União Europeia parece ser o mais próximo do Céu que alguma vez conseguiremos chegar, é mais ou menos como se fosse. |
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Summertime 17
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Árvores de fruto sem fruto e bolinhos da cacau eram as testemunhas das nossas indecisões. Praia ou montanha? Baunilha ou chocolate? Gin ou infusão de cidreira? Design suiço ou empowerment comunitário? Também tivemos outras dúvidas, mas essas, mais medos que disputas, eram a forma de aprovisionar para o longo Inverno do Norte, ao qual sabíamos ser impossível resistir. As insuspeitas laranjas newtonianas, cujas propriedades metafísicas suplantam em muito as das maçãs caucasianas, e as ornitologias industrializadas à ordem dos herdeiros de Messiaen, davam-nos a ilusão de que um tempo, assim entendido como delimitação, só é passsível de ser aproveitado quando sabemos, mas conseguimos esquecer, que está prestes a terminar. Hoje, que a distância é maior que as possibilidades, assim entendidas como plurais, é para mim óbvio que um tempo só é passível de ser aproveitado quando sabemos, mas conseguimos esquecer, que há muito terminou. Anseio pelos segundos antes da morte para compreender por que razão dizias, assim entendido como gesto, que nenhum tempo é passível.
Michiel Sweerts, Crânio, c. 1660 |
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Solipsismo
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Como é evidente, já está em linha, na secção de fotos deste sítio que também é vosso (excepto na hora de pagar as contas), a última edição do já indispensável Pseudopolaroid, desta vez relativa ao finado ano de 2007. Conta com a gataria do costume, com quatro magníficas fotografias tiradas no concelho de Aveiro, com uma do meu egrégio colega José Pacheco Pereira e está, embora um bocado menos polaroid que as edições anteriores, muito mais pseudo que nunca.
Diz-me o contador de acessos que quase ninguém (ou seja, menos de setecentas pessoas por dia) visita a página de entrada deste sítio que também é vosso (excepto na hora de pagar as contas). É pena, porque é gira. A imagem muda com regularidade desconhecida, mas muda. Pronto, era só para dizer.
E agora que já toda a gente fechou a janela, não posso deixar passar em claro a referência a três blog[ue]s cujos autores tiveram a simpatia de nomear este que ora ledes, e que também é vosso (excepto na hora de pagar as contas), entre as suas escolhas de 2007: o Supurar o Gato Pastel, que o escolheu como uma das «revelações do ano», simpatia amplificada por, ao fim de todo este tempo, ser quase a mesma coisa que ganhar um concurso de miss t-shirt molhada aos 83 anos; o naked sniper, cuja ideia, que ainda por cima não é dele, eu não percebi lá muito bem, mas que deve ser boazinha, com toda a certeza; e este blogu[ue] de nome bastante problemático, que elegeu esta posta como uma das frases do ano. Ele há gente para tudo. |
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