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Os resultados da Primeira Grande Sondagem Agrafo Ponto Net são:
Porta-te como um homenzinho e |
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A meloa
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Fazei um esforço, pelo amor do vosso deus, por meter isto na cabeça: a meloa é um fruto que tem de ser comido frio. Muito frio. Como se consegue que a meloa fique muito fria? Colocando-a no frigorífico umas horas antes de ser comida. Não vos quero voltar a ouvir dizer que não comeis meloa por causa do sabor esquisito, porque sabe a podre, porque parece que está estragada. Se a tivésseis deixado arrefecer durante um bom par de horas no frigorífico, a mesma meloa de quem dissestes todas essas aleivosias teria sido uma maravilha de subtil doçura vegetal. Especialmente se a tivésseis comido com uma colher de sobremesa após lhe teres substituído as grainhas por cubinhos de queijo de cabra. Vedes agora como é fácil? E também estou certo de que conseguireis ver aqui uma metáfora fácil e primária que vos facilitará a memorizar estes simples procedimentos. |
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Oposição e desaparecimento
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Há alegria, e não apenas prazer, na decadência. Nos olhos que escolheram a morte e agora se passeiam pelo meu passo ao arrepio da dignidade. Julgam-se protegidos pela noite, como antes se criam salvos pela cegueira. Estava lua-quase-cheia a caminho do eclipse, Júpiter brilhava na longa viagem entre oposição e desaparecimento. Nada, e não apenas as poses, muda. |
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Melhor
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Nós é que fizemos o investimento todo. Fizemos a prospecção, o desenvolvimento do produto, a sua colocação no mercado. Agora não gostam. Deixam-no a apodrecer nas lojas. Nas montras, à vista de toda a gente. A perder a cor, o brilho da novidade e das promessas. Aparentemente, não corresponde às expectativas. E digo «aparentemente» porque, pelo menos a nós, nunca ninguém disse nada. Nunca houve uma queixa, uma reclamção, uma sugestão, nada. Simplesmente não o querem, não o levam. É do preço? É do tamanho? É da cor? Não sabemos. Como mais ninguém teve a iniciativa de lançar outro dentro da mesma gama, não há um termo de comparação que nos deixe concluir grande ou pequena coisa. É no que dá a originalidade num país de românticos desasados. Se é que é disso, porque pode muito bem não ser. |
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O meu okrug é melhor que o teu oblast
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Os barcos ao largo da Cólquida não são os mesmos, já não é o Tosão de Ouro que demandam, não serão as sereias a perturbar-lhes a rota. Os pássaros são outros, são também outros os deuses que os mandam — as entranhas pertencem a novos amarrados por novos motivos. Pobre Dr. Pangloss, que se deixa levar por estas mudanças na decoração. |
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Fascismo zen
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Vi-me recentemente confrontado com a necessidade, que muitos de vós certamente também haveis sentido, de adquirir um leitor de MP3 decente que substituísse as tralhas de dez euros e as porcarias oferecidas pela Deco que para aqui tenho a encher-me a casa. As minhas exigências eram, parecia-me, simples. O objecto do meu desejo tinha de ter pelo menos dois gigabaites de memória, um som em condições (é para ligar à minha poderosa aparelhagem), rádio, não exigir cabos específicos do aparelho e ser alimentado por pilhas, que eu ecologicamente recarregaria à medida das minhas necessidades.
O primeiro problema surgiu logo com as pilhas: não há leitores de MP3 decentes que aceitem pilhas. Todos eles têm a sua bateriazinha recarregável e, quando se acaba a bateriazinha recarregável, acaba-se a música. Depois é ligar o computador, conectar o leitor ao computador e esperar algumas horas até aquilo ter ficado com carga suficiente para não ser preciso repetir a operação meia hora depois. Se se estiver num sítio sem computador, acabou-se a música, ponto final. A única forma de contornar este problema é gastar o dinheiro para a viagem às Maldivas num carregador de corrente ou de carro. Ou nos dois, caso em que também terá de se gastar o dinheiro reservado para o T2+1 no Fogueteiro.
Estando esta condição excluída por falta de oferta, passei a identificar, através de leitura de testes e comparativos encontrados nos sítios da especialidade, quais eram os que tinham uma qualidade de som apresentável. Cheguei à conclusão de que o aiPode Nano, o Sóni XPT-i9905432TDI-O e o Criativo Zen Vê Mais, eram as melhores opções, pelo menos dentro da quantia que eu estava disposto a desembolsar. No entanto, quer o Sóni VX109Z3W-7FS quer o aiPode Nano são desprovidos de rádio, algo de que eu não estava disposto a prescindir. Ainda por cima, qualquer um dos dois exige cabos específicos para se conseguir fazer a ligação ao computador, o que obriga a que, caso uma pessoa queira ligar o aparelho no trabalho ou em casa de um amigo, conhecido ou colega, tenha de andar a carregar o cabo para todo o lado.
No caso do aiPode Nano, acrescia a estas limitações a de ser vendido por um preço substancialmente mais elevado que os restantes competidores, o que, julgo, se justifica pela histeria que ultimamente rodeia tudo quanto seja lançado pela Maçã, uma conhecida empresa norte-americana de marketing e relações públicas que, volta e meia, faz uma espécie de computadores. Devo dizer que, pelo menos no caso dos leitores de MP3, tenho alguma dificuldade em compreender tanto barulho: são feios, muito feios, demasiado feios para uma pessoa com a minha classe os poder usar. Daqui a vinte anos, quando as pessoas se virem nas fotografias com aqueles abortos, vão sentir alguma vergonha. As gentes nada aprenderam com os anos setenta, umas porque não estavam lá, outras por outras razões igualmente estúpidas.
Fiquei portanto reduzido ao Criativo Zen Vê Mais (o simplesmente Vê não tem rádio). Desvantagens à partida: a capacidade da bateria não é arrebatadora (quinze horas no máximo); os comandos foram feitos a pensar nos habitantes de Lilliput; vem com uns fones de qualidade incompreensivelmente baixa para um produto daquela gama. Vantagens à partida: é verdadeiramente lindo e tem tudo aquilo que eu queria e mais umas trezentas features que eu nunca supus que poderia querer. Não foi fácil encontrar o de dois gigabaites, mas lá consegui, numa loja habitualmente caríssima, mas que até o tinha a um preço inferior ao que todas as outras vendiam o de um gigabaite. É claro que o que gastei em gasolina, em deslocações entre centros comerciais à procura dele, deve ter sido mais ou menos o que gastaria se o tivesse comprado no sítio em que ele era mais caro, mas há coisas que não há volta a dar-lhes.
Paguei (vou poupar-vos aos detalhes), vim para casa e, logo aí, começaram as más notícias: o Criativo Zen vê Mais só interage com o computador depois de se instalar o software que eles bondosamente incluem na embalagem – não seria a primeira vez que uma marca de equipamento electrónico vendia produtos com funções só possíveis de utilizar com software que tinha de ser comprado à parte. Mas lá se foi a portabilidade. Se é certo que não tenho de andar com um cabo especial de corrida para ligar o leitor de MP3 a um computador qualquer (basta um cabo mini-USB, que toda a gente hoje em dia tem), não é menos certo que tenho de andar com o software original atrás, caso contrário a única coisa que o aparelho faz quando o ligar ao computador é carregar a bateria.
Instalei o software e as más notícias continuaram. Se nos querem forçar a utilizar o software deles, o mínimo que se pedia aos senhores da Criativo era que esse software não fosse um monte de esterco informático saído das mãos trémulas de um estagiário de programação cujo futuro profissional depende de ter o produto pronto cinco minutos depois de lho mandarem fazer. Por entre várias complicações desnecessárias e pormenores claramente deixados a um acaso que não estava nos seus melhores dias, o programa de gestão de ficheiros do Criativo Zen Vê Mais tem a particularidade de não permitir alterar a arrumação dos ficheiros por pastas depois de estas terem sido carregadas para o leitor.
Imaginemos que eu carreguei duas pastas, uma com um álbum do Nel Monteiro, outra com um álbum da Romana. Imaginemos agora que as vozes dentro na minha cabeça me dizem que a faixa três do álbum do Nel Monteiro ficava melhor dentro da pasta onde está o álbum da Romana. Não posso. Depois de muito explorar, a única solução que descobri passa por colocar, ainda no computador, a terceira faixa do álbum do Nel Monteiro na pasta onde está o álbum da Romana e, só depois, carregar aquilo tudo para o leitor. Mas mesmo assim não é garantido que resulte, uma vez que o aparelhinho (é mesmo giro), cujo firmware ainda consegue ser pior que as porcarias que nos obrigam a instalar no computador, assume as faixas por álbuns, o que quer dizer que se os ficheiros tiverem a informação completa, ele vai ordená-los por álbuns independentemente de nós os pormos dentro de pastas diferentes, ao molho dentro da mesma pasta, ou assados em forno de lenha.
Quem está a pensar que basta ir ao Explorador das Janelas e aí resolver o problema, que se desengane: o Explorador das Janelas, sempre que utilizado para chafurdar no interior do leitor de MP3, é tomado pelo software do Criativo, sem que o dono do computador tenha sido consultado, e fica limitado às opções que este lhe impõe. Ou seja, a nenhumas. Se eu quiser pôr dentro do leitor uma faixa de cada álbum (uma do Nel Monteiro, uma da Romana, uma da Ruth Marlene, uma dos Buried Alive, uma do Agrupamento Musical Diapasão, etc.), ele considera as faixas por ordem alfabética (é como ordena os álbuns) e não por número da faixa, original ou atribuído por mim. É perfeitamente possível configurar o fundo de ecrã, mas isto, algo muito menos útil, não.
Posso, no entanto, contornar o problema através da criação de playlists. A criação de playlists é um processo inesperadamente fácil através da utilização do software original do equipamento, mas implica que tenha de se ligar o coiso ao computador, o que pode não ser prático, especialmente se o seu feliz possuidor estiver a fazer campismo selvagem nos Cárpatos. É claro que, se o seu feliz possuidor estiver a fazer campismo selvagem nos Cárpatos, também não tem sítio nenhum onde carregar o leitor e, visto que ele não aceita pilhas, a ordem pela qual as músicas estão armazenadas é um pormenor bastante irrelevante. Mas não há solução? Há: pode-se criar playlists no próprio leitor. Só que, no caso de se tratar de ficheiros de música correspondentes aos dois gigabaites que aquilo consegue armazenar, o processo é de tal maneira demorado que, quando estiver concluído, o universo tal como o conhecemos já terá deixado de existir. E a capacidade da bateria do Criativo Zen Vê Mais (adorável, sexy, nham-nham) não chega para tanto.
O leitor, volta e meia, quando está abafado dentro de um bolso ou entalado no elástico das cuecas, pára, sem dar explicações – deve ser do calor, coitadinho –, mas perante o desastre que é tudo o resto, inclino-me a considerar este como um contratempo menor. Seja como for, no sítio da Criativo dão-me a possibilidade de reinstalar o firmware do equipamento para resolver eventuais casos de mau funcionamento. A avaliar pelas amostras já fornecidas, não me sinto particularmente tentado a experimentar. Não me espantaria se esse processo causasse a autodestruição do aparelho, do computador e da civilização ocidental (com minúsculas, para não me chagarem muito o juízo). Vale a qualidade do som, que de facto é bastante razoável, e a existência de uma funcionalidade que normaliza o volume sonoro de todos os ficheiros de música, o que é prático quando se tem canções de origens diferentes. Esta função, contudo, não está isenta de problemas: quando activada, a carga de bateria vai-se toda em aproximadamente três segundos.
Para quem a música não basta, o Criativo Zen Vê Mais tem ainda leitor de vídeos, que podem ser vistos no seu minúsculo ecrã às custas da obtenção, inteiramente gratuita, de um problema irreversível do foro oftalmológico; visor de fotografias; aquecedor de halogéneo com 1200 watts de potência; relógio com alarme; máquina de café expresso; gravador de voz; gravador directo (in-line) de leitores de CD/DVD; encostos de cabeça dinâmicos; rádio FM (bastante competente, valha-nos isso); a possibilidade de se alocar parte da memória para armazenamento de qualquer tipo de ficheiros; máquina de lavar louça; agenda sincronizável com o computador; e lista de contactos. Uma vez que o Criativo Zen Vê Mais não tem teclado, a utilização destas últimas duas funcionalidades para qualquer tarefa, mesmo de pequena monta, requer o dispêndio dos vinte e dois dias úteis de férias a que tenho direito por ano e ainda todos os feriados, fins-de-semana e meia dúzia de baixas psiquiátricas de doze dias cada.
Em conclusão, o Criativo Zen Vê Mais é um produto que tende a cativar os incautos com o seu lindo olho verde (é mesmo muito bonito), o tamanho, o peso e a quantidade delirante de opções e funcionalidades que oferece. Mas é francamente mau em quase tudo o que faz, pouco ou nada flexível, totalitário e dotado de firmware e software mal concebidos, que obrigam a procedimentos pouco práticos e, muitas vezes, patetas, para conseguir alcançar objectivos básicos para quem compra um aparelho deste tipo. A ergonomia foi também escandalosamente sacrificada em nome da estética, mas a verdade é que ficou mesmo muito bem, ao ponto de já me ter passado pela cabeça fazer com ele coisas que só não vêm na Bíblia porque naquele tempo não havia estas modernices.
Quem não precisar de rádio, deverá considerar o Sóni L-4130GH591KXV, que, às tantas, tem os mesmos problemas, mas que pelo menos tem muito mais capacidade de bateria. Quem, para além de não precisar de rádio, também não tiver gosto, pode sempre passar fome e comprar um aiPode Nano, que, às tantas, tem os mesmo problemas, mas que pelo menos está na moda. Considerai-vos avisados. Classificação: uma estrela.
Correcção: Afinal, o Sóni HS701831297WADAWADA45J tem rádio, o que não tem é gravador de voz. Um gajo também se pode enganar. Ou seja. |
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Perímetro
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Dois criminosos, que falavam português-embora-com-sotaque-brasileiro, assaltaram o Holy Ghost Bank, onde fizeram reféns. Há lá uma data de bancos, mas escolheram aquele. É no que dá não gostar de sobreiros. O que vale é que já trato de tudo pela internette, nunca ponho os pés nas agências. Quem tem cu tem medo. No momento em que vos escrevo estas linhas, os sequestradores foram neutralizados (um morto, o outro a caminho), não sem que antes o especialista em estúdio, o Presidente da Câmara Municipal de Santarém, achasse que isto costuma ser mais estrangeiros, brasileiros, romenos. São culturas mais violentas, qualquer pessoa que conheça a realidade que se vive no Brasil, na Moldávia, na Ucrânia, sabe como aquilo é. E na Roménia também, presume-se. O Rodrigo lá lhe fez o favor de passar uma microrreportagem com a mais cuidada selecção dos últimos e mais espectaculares casos de sequestro ocorridos na Nossa Brava Nação. Seis: o casal em Lisboa, o homem em Setúbal, o padeiro em Sobral de Monte Agraço, etc. Todos por portugueses. Uns por causa das dívidas, outros por causa dos filhos. Quem conheça a realidade em Sobral de Monte Agraço sabe como aquilo é. Os negociadores falaram em diferido com janelas em directo no canto do ecrã. O Presidente da Câmara Municipal de Santarém explicou os afectos, o tempo, a utilização do nome próprio. O saco com uma piza deixado pela polícia à porta do Bank. Tropical ou anchovas. Mas também podia ser vegetariana. Extra queijo, uns pãezinhos de alho, se pedir uma familiar tem direito a duas latas de refrigerante à escolha. A gerente estava bem, diz a amiga lá foi ter quando viu as notícias, mas teve de ser transportada para o hospital porque, provavelmente, o factor psicológico devia estar um pouco abalado. Divorciada, trinta e três ou trinta e quatro anos, um filho que está de férias com o pai, mas não sei onde. Deve ser no Algarve, há-de ser de onde? Não sabem ir para mais lado nenhum. Os tiros, pelo som, foram claramente dos atiradores furtivos do Grupo de Operações Especiais. Fui comer uma saladinha, que não consigo ir para a cama de estômago vazio. Não há inibidores de apetite, naturais ou sintéticos, legais ou ilegais, que me resolvam isto. A polícia queria os jornalistas fora do perímetro porque estes não percebem nada de geometria, informaram-nos de que iria haver um comunicado, mas depois nunca mais saía o comunicado. Deviam estar a corrigir-lhe as gralhas, a acertar as concordâncias. Ninguém se entende com o Escritório 2007. aquela lógica iconográfica intensiva é uma cruz para quem está habituado a ter tudo em menus de texto. E para quem usa portáteis com o monitor largo e baixo, fica-se com pouquíssimo espaço de editor propriamente dito. Não há quem perceba o que se passa com a cabeça daquela gente, desde há dois anos que não lançam um produto de jeito. Afinal parece que um dos tiros foi da PSP, à queima-roupa. A sub-intendente Carrilho não respondeu a perguntas. O boné da bófia não fica nada bem. Percebe-se que a operação está terminada. Andam para lá uns agentes para cima e para baixo. Tipo o Ci Ésse Ai, andam a recolher coisas, impressões digitais, a bloquear o trânsito. Quem conhece a realidade em Campolide sabe como aquilo é. O Presidente da Câmara de Santarém diz ao telefone que a operação foi de um grande profissionalismo e qualquer coisa acerca deste tipo de desfechos. Estava a inalar os corticóides e não consegui perceber bem. Sempre tive um problema com o multitarefa, especialmente quando envolve inalar e ouvir ao mesmo tempo. O meu otorrino já não sabe o que me diga. Já o ministro disse umas coisas, em tom douto, preclaro. Gosto muito do tipo, mesmo quando não diz nada que se aproveite, que é tudo menos o que disse no debate do aborto. À hora de ponta, as senhoras que queriam apanhar o dezoito, que as levaria de volta aos tachos e panelas, achavam aquilo uma vergonha. Há também a registar uma explosão numa fábrica de pirotecnia em Ponte de Lima. Quem conhece a realidade em Ponte de Lima sabe como aquilo é. |
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Ocre
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E.B., s.t. (Quarto com vista n.704), 2008
O Agosto já não é tão ocre. A cidade tem a(s) alma(s) devolvida(s) pela mundialização. As temperaturas baixaram para deixar passar o aquecimento global. As velhas só teimam na vetusta arquitectura que lhes resguarda a obstinação. Os assassinos tenteiam o protector solar para que a pigmentação lhes não traia o disfarce. O suor arrefecido nos lençóis é medido pela bitola da Direcção-Geral dos Recursos Florestais. O barulho que se faz, santo deus, o barulho que se faz. Os gatos de casa dão comida às utopias abandonadas na rua pelos veraneantes. O odor metálico alojou-se nas esquinas e tornou obsoletas as brigadas anticrime. O Abrupto, que as pessoas más tanto citam sem fabricar o devido enlace, fez-se o fotoblog[ue] mais cruel dos infoincluídos. Os adjectivos não se derretem por entre as fissuras dos ecrãs. Nem os sinónimos do amor ou a sua memória são já os mesmos. |
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Tecido
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As traças foram-me ao fato de Rato Míquei que tinha guardado no guarda-fatos. Com tanta coisa para comer, tinham de escolher aquilo. Isso é que me lixa. Nunca o usei, é certo, mas sempre por bons motivos. Neste último Carnaval, porque estava um bocado achacado e resolvi ficar em casa. No do ano passado, porque não cabia dentro dele. No do ano anterior, porque me ficava ridiculamente largo. Nos outros, já não me lembro, não retenho informação com mais de três anos. Na verdade são três anos, cinco meses e vinte e quatro dias, mas, para o efeito, vai dar ao mesmo, porque o Carnaval de há três anos foi a oito de Fevereiro e, portanto, está para sempre perdido. Lembro-me do essencial: que foi por uma boa razão. É quanto me basta. Agora, para o ano que vem, já não posso ter a esperança de ser desta que reúno as condições necessárias para fazer a tão ansiada parelha com o Pateta. Ele não diz nada, mas eu sei que, a cada Carnaval que passa, ele veste o fato e espera que eu possa fazer-lhe companhia na palhaçada. Comprar outro? Isso não é assim. Um fato de Rato Míquei não é apenas um bocado de tecido que se enfia no guarda-fatos à espera das traças. Um fato de Rato Míquei é aquele ou não é nenhum. |
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Em terra de ceguinhos
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A rua estava cheia de buracos, alguns deles crateras. Como era uma rua onde passavam muitos ceguinhos por causa de uma associação que existe nas proximidades, tiveram de a arranjar, porque os ceguinhos, ou alguém em seu nome, resolveu apresentar uma reclamação à câmara. O que nos valeu foram os ceguinhos, ou alguém em seu nome. O procedimento fez escola: agora, de cada vez que alguém reclama por causa das crateras na sua rua, a câmara manda uns estudantes à bolonhesa contar os ceguinhos que por lá passam todos os dias.
Esse número integra depois, juntamente com outros, uma fórmula de cujo resultado se retira a prioridade dada à requalificação daquela via pública face àquela habitadas por pessoas que não precisam de ser ceguinhas para terem a rua arranjada. As coisas não são assim tão simples, precisamente porque há outros factores em jogo (o número de criancinhas, o número de velhinhos, etc.), mas uma coisa é certa: os ceguinhos têm uma ponderação desproporcionada. Quem chega primeiro, coisa e tal. Quem vai por arrasto, é assim a vida.
Isto, claro, já fez surgir situações de aproveitamento pouco escrupuloso da fórmula. Há quem agora se dedique a deslocar ceguinhos de um lado para o outro da cidade, em carrinhas fretadas para o efeito, para que eles possam passar repetidamente nos vários sítios onde os estudantes estão a fazer as contagens. Olha, ao menos sempre passeiam, coitadinhos. As estatísticas da câmara são assustadoras. O número de velhinhos e de criancinhas também está a aumentar. Já ninguém sabe o que lhes há-de fazer. Não há quem nos valha. |
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Paralaxe
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Disse-lhe que queria uma coisa simples e nua. Mostrei-lhe isto, para ver se percebia. Expliquei-lhe o meu gosto pela esterilidade, a aridez, o vazio. Que me sinto em casa na assepsia, no gelo. Que deveria haver apenas um fino rasgão, uma chamada aos surpreendidos, como uma cicatriz antiga que se transformou numa nova ruga. Toda a gente tem pelo menos uma fraqueza e esta é a minha. Podia ser pior, como lhe expliquei com exemplos (talvez demasiado) gráficos. Mas não creio que tenha chegado lá. Se ainda cá estivesse, tremeria com a antecipação dos resultados. |
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