É natural que o público saia das salas de cinema um pouco zonzo, tonto, aturdido ou de outra forma perturbado. Não por ser a milionésima metaforazinha da destruição com que o macho branco, depois de recrutar a fêmea branca para a secção de caridade & condescendência, macula todas as virgindades em que a sua mão põe o pé. É antes das potencialidades da cauda. Da terminação felina do nariz. Da sobriedade musculada dos corpos. Uma evidência impõe-se: um na’vi que aceda a corrigir aqueles dentes é uma solução perfeitamente aceitável para a maior parte das pessoas em que a função serotonérgica esteja, por assim dizer, liberta de constrangimentos de maior. Uma solução que durará até que uma falha da EDP os separe. O que, dependendo da qualidade do serviço praticada na zona de cada cliente, pode ser bastante mais que a vulgar eternidade.

2010.01.09

Imortalidade não é teres o nome numa placa de rua nem uma memória solid state com o teu blogue a rodopiar no espaço sideral. E muito menos o é teres uma estátua no parque atrás da qual os mendigos se possam aliviar. Imortalidade é conseguires transmitir o teu património, inevitavelmente misturado com o da outra, que foi o que conseguiste arranjar, sabem as estrelas com que custo, e saberes lá tu onde vai ele parar daqui a duas, quatro, oito ou quinhentas e doze gerações.

É, depois de dares a procriação por encerrada, buscares na rede um ideograma kanji para «imortal», imprimi-lo numa folha A4, levá-lo ao melhor tatuador da tua área de residência e gravá-lo, em pequeno mas resoluto, no interior glabro e alvo do teu antebraço direito — em japonês e não nas imediações dos ilíacos, porque até nisto convém respeitar os limites de discrição impostos pela Comissão Europeia. É exibires orgulhosamente a tua nova peça de body art mesmo quando está de inverno, a título de firmeza. É toda a gente saber que já não há nada a fazer. É conheceres casualmente um aluno da licenciatura à bolonhesa em Estudos Orientais da Universidade do Pinhal Interior Norte que é franco contigo e te diz que:

a) a caligrafia pode ser aceitável para a insensibilidade de um ocidental, mas nunca o será para um estudante do ensino básico japonês que não pretenda falecer de insucesso escolar nos próximos 5 anos;
b) foste ludibriado e o ideograma não significa «imortal», mas sim «pipoca».

Imortalidade é comeres tudo o que vem à rede.

Imortalidade é o aluno da licenciatura à bolonhesa em Estudos Orientais da Universidade do Pinhal Interior Norte, que agora repugnas casualmente, não respeitar os limites da discrição impostos pela Comissão Europeia e ficares conhecido na terra como o Pipoca. É o aluno da licenciatura à bolonhesa em Estudos Orientais da Universidade do Pinhal Interior Norte ser obrigado a transferir-se para a licenciatura à carbonara em Assistencialismo e Subsidiodependência da Universidade de Dão-Lafões para conseguir escapar à tua ira. É começarem a lançar-te piadinhas quando vais ao cinema. É passares a ficar na letra p sempre que te adicionam à lista de contactos. É teres de te apresentar assim porque já ninguém te conhece de outra maneira. É correres o risco de ter esse nome numa placa de rua, embora talvez nunca a viajar para lá da região transneptuniana. É a outra, santo deus, que nunca mais se farta e vai, chamar-te Pipoca para pôr em causa a tua virilidade sempre que só regressas na manhã seguinte. É saberes que Pipoca ainda pode acabar na identificação oficial das misturas do teu património daqui a duas, quatro, oito ou mil e vinte e quatro gerações, sabes lá tu com que orto ou ideografia.

É já não suportares mais a vida com o Pipoca, mesmo depois da dermoabrasão e da cicatriz hipertrófica, porque o Pipoca continua a viver bem contigo e também não se farta e vai. É ele começar a ir para o trabalho contigo e tu perguntares-te porque não foste antes para Londres, onde serias simplesmente pop apesar de corn, quando era tempo disso. É ires passar férias com não-iniciados e ele colar-se-te no momento em que regressas. É um dia não saberes onde tens a cabeça, ires com o Pipoca agarrado para o lavatório, como para todo o lado, perderes as estribeiras e dares-lhe uma tareia descomunal. É a seguir olhares-te ensanguentado ao espelho e, na solidão letal da casa-de-banho do quarto de casal, dizeres-lhe: «acredita, minha querida, doeu-me mais a mim que a ti».

2010.01.05

2010.01.02

Houve um tempo em que pensei dedicar o melhor da minha vida à exploração minuciosa dos mecanismos subjacentes à formação de pares perfeitos. Frango e milho, massa italiana e alcaparras, ana e maria, preto e rosa, favas e camarão, sexo e violência, cerveja e tremoços, machado de assis e ameixa rainha claúdia, escondidos e infusão de limonete, pasolini e cafuné, pedro e miguel, canábis e sumo de maracujá, romãzeiras e azulejaria oitocentista, vergílio ferreira e chuva lá fora, hepburn e fonda, ervas finas da provença e veado mal passado, europop e laranjada, satie e sudeste, ovos moles e diabetes gestacional, gore vidal e frottage, tabaco e setembro, tabaco e maresia, tabaco e vermute, nozes e ricotta, natas e moka, cádiz e trovoada, descartes e fôrmica, piedade e abjecção, pessoa e psicose, acordar e barcos no tejo, amor e fiat punto, hockney e piscinas, cheddar e pepino, cloridrato de melperona e chostakovitch, agário-das-moscas e neblina matinal, arroz e lingueirão, et al. e etc.

A lista era potencialmente interminável, o que só tornava o propósito mais ridículo, egocêntrico, boçal. Mas eu era jovem e precisava do dinheiro. E estimulava-me o desejo adicional de confirmar a justeza de Wilde: aqueles que vêem alguma diferença entre corpo e alma é porque não têm nenhum dos dois. Nunca duvidei de que minha essência pode ser resumida, sem perdas substanciais, nas contracções do meu músculo detrusor, mas uma coisa é saber, outra é produzir a possibilidade, mesmo que fútil, de replicações. Agora, com toda esta distância que me separa daquela empresa, e tendo entretanto encontrado formas bastante menos satisfatórias, mas mais inteligentes e lucrativas de consumir a luz dos meus dias, é-me impossível não reparar na queda gastronómica do meu plano, daí retirar as mais trágicas conclusões e nelas afundar-me por incapacidade calcificada de me contrariar. Não são só as pessoas que não mudam nunca: eu também não.

2009.12.29

Foram seis meses que me moldaram, que fizeram de mim o homem que sou hoje. Mas como o que sou hoje é o mesmo que era ontem, anteontem e por aí atrás, esta parte foi a mais fácil. Uma espécie de predestinação previamente conhecida, o direito a um julgamento justo que culmina numa condenação inevitável, um pombo que não teve o bom senso de se aliviar no nosso impermeável, a mensagem do operador a informar que temos oito dias para que o carregamento do telemóvel expire. O princípio da não retroactividade da lei atinge picos de benevolência que seriam impossíveis de conceber antes da fase pré da pós.

Cheguei, de mochila às costas, a meio da noite. Mas como lá é sempre de noite, é sempre meio da noite. Esta parte foi a mais fácil. Adaptei-me sem problemas. O local rege-se por uma lógica exclusiva e exaustiva de exposição ao factor precipitante: ou te curas ou te fodes. A psicologia clínica cognitivo-comportamental, especialmente quando levada à prática por agentes cujas competências não foram validadas por uma panelinha, é capaz de extremos de sadismo que pensávamos abandonados desde a fase pós da pré. Mas lá que resulta, resulta, mesmo quando não resulta.

E ao que fui e o que estive lá a fazer durante todo aquele tempo? Para começar, achei por bem libertar as costas da mochila, tomar um longo banho de água fria — como não havia outra, esta parte foi a mais fácil — e recrear-me como comensal, a melhor forma que encontrei de me apresentar às vítimas da noite em recuperação. Depois, recoloquei a mochila às costas e comecei tudo de novo, banho incluído, mas agora à frente delas. E fui sempre fazendo isto, uma vez após outra, perante novas levas de vítimas da noite que vinham substituir as entretanto recuperadas ou falecidas, ou seja, expulsas para a manhãzinha ou para o entardecer, respectivamente.

Precisavam de alguém que as sentisse mas não se sentisse, alguém que nada esperasse delas, nem no mau nem no péssimo sentido. Alguém que se divertisse às custas delas sem sentimentos de culpa e aceitasse os seus apupos sem ressaibo. E quero crer que, com o desempenho das minhas funções aparentemente paradoxais de pilar da permanência e metáfora mal amanhada do transitório, deixei alguma marca numa geração. Uma marca tão grande como aquela a que eu próprio consegui escapar.

2009.12.27

2009.12.22

A família tradicional foi destruída quando as mulheres começaram a desenvolver actividades profissionais fora do lar doce lar. Mais tarde foi abatida pela introdução e generalização dos métodos contraceptivos hodiernos e pela emancipação sexual das mulheres, essas porcas, novamente. Pela mesma altura, também foi morta pela televisão, que impôs um fim inglório aos serões de profunda comunhão que todas as famílias tradicionais partilhavam em torno da telefonia. Não consta que a telefonia tenha acabado com a família tradicional, mas não me espantaria que o tivesse tentado. Mas a tortura não acabou aqui: aproveitando-se da televisão, chegaram os videojogos, que mataram a família tradicional, depois de a brutalizarem durante várias horas, com requintes de sadismo e sem que ninguém lhe acudisse. E não tardou muito até que a internet, aproximando os distantes e desconhecidos às custas do afastamento dos próximos e conhecidos, exterminasse, também ela, a família tradicional.

Embora não haja provas definitivas, decorrem indagações que hão-de acabar por atribuir à despenalização do desmancho a responsabilidade por um novo assassinato da família tradicional. Da mesma família tradicional que se prepara agora para ser morta pelo casamento entre pessoas do mesmo sexo, independentemente da sua orientação sexual. Independentemente da sua orientação sexual já podiam e amiúde o faziam, mas o papel passado é o que, aparentemente, o torna fatal para a família tradicional. E não tardará muito até que a eventual permissão da adopção, também ela de papel passado, de criancinhas indefesas por parte destes novíssimos e inauditos casais que se estão a preparar para matar a família tradicional, mate, mais uma vez, a família tradicional. Pode ser que um dia alguém se lembre de fazer o serviço recorrendo aos únicos meios de comprovada eficácia para tratar destes casos: uma carabina semi-automática, um jerricã de querosene e uma caixa de fósforos. Talvez que nesse dia nos vejamos, finalmente, livres daquilo.

2009.12.19

Levantei-me cedo e fui à Serra da Boa Viagem apanhar humidade nos ossos. Depois comi uma tosta vulgaris, que empurrei com a ajuda de uma Sagres (loura, 33cl) num café anónimo, e fui-me sentar num daqueles calhaus da Murtinheira que se tornaram património geológico da nação a ler algumas páginas de um livro menos mau. Roí uma cenoura de supermercado quando me voltou uma espécie de fome. Tirei meia dúzia de fotografias ao entardecer trivial na praia e, para cumprir o programa até ao fim, deitei-me na areia húmida, por minutos, a ouvir o rumor estafado da ondulação. Brisa fresca nas partes descobertas, maresia nos receptores, etc.

A barreira contra a paternidade que se estende, dali para Norte, na forma de um majestoso cordão dunar, pode desaparecer dentro de alguns anos. Hoje é repositório do plástico trazido pelo mar de Inverno e das carcaças de golfinhos que se acumulam nas áreas não concessionadas. Antes do final do século poderá estar submerso ou envenenado ou ambos. Mesmo as áreas concessionadas. Mas a sensação de que toda a aquela costa, predominantemente sentimental, poderá não me sobreviver, deu-me um conforto maior que o que poderia ter retirado de passar a tarde debalde aos gritos por um mundo quase habitável para os filhos dos outros.

O copo está entornado. Meti-me no carro, comi uma salada inteligente no shopping construído no lugar que era de sobreiros e suas estranhas companhias, vim para casa, tomei um banho de ácido hipocloroso, entortei-me no sofá a ver uma tentativa que ficou encravada entre Vladimir/Estragon e Statler/Waldorf e fui para a cama dormir o sono dos injustos seguros de que se safaram por pouco. Quando acordei, ainda cá estávamos todos, mais os eflúvios depressores que entretanto relançámos na canalização. Um dia à frente do outro: assim é que se faz o futuro para uma eficiente máquina de ressentimento.

2009.12.16

2009.12.13

O diletante estica-se na cama para fazer alongamentos.

O diletante morre feliz todas as manhãs.

O diletante foi o primeiro homem a pisar a Lua com os pés descalços.

O diletante passeia-se e ao seu bloco de notas semper virgo pelo jardim semper virens onde observa com o mesmo desprendimento as damas ao sol e os mancebos pousados nas nuvens que aí vêm.

O diletante faz anéis de fumo sentado na borda da piscina.

O diletante não sabe ir a Londres sem passar por Paris e vice-versa.

O diletante não esmorece perante a adversidade ou a evidência.

O diletante atende o telemóvel mesmo quando foi ele a ligar.

O diletante bebe café com um cubo de gelo em chávena escaldada.

O diletante não se desloca, desliza. O seu maior temor é tornar-se aquilo de que foge e por isso foge glissando. Teme o filho que acabou a fazer à mulher o que imaginou o pai fazer à mãe ou a filha que acabou a fazer-se ao marido da forma que viu a mãe desfazer-se no pai. Ou o denegado que se abriga da afirmação perseguindo o renegado. Ou as tolerâncias que se fazem remetendo os seus libertados a uma nova servidão. Edifica-se um corruptor para salvar um casamento do seu próprio casal com a mesma facilidade com que se descobre judeus para salvar um reich da sua própria alemanha. Ou com a mesma facilidade com que se queima uma correspondência para salvar um dono da sua própria pena. Acontece às singulares como acontece às colectivas, mas essa é uma ponte difícil de enfrentar, pois os ventos cruzados perturbam quem, como o diletante, é mais leve que o ar.

O diletante precisa de disciplina mas tudo o que lhe dão é disciplinas.

O diletante sofre de todos os males incuráveis da sociedade da cura.

O diletante é grande demais para isso, quanto mais para isto.

O diletante deita-se no chão a ouvir música com o auscultador esquerdo no ouvido direito e o auscultador direito no ouvido esquerdo.

2009.12.11

A telenovela Perfeito Coração, actualmente em exibição num dos canais de sinal aberto, interessa-me. Trata-se de um objecto que pode ser arrumado no sub-sub-sub-género missing children exploitation soap operas, que acabei de criar, em que o mau da fita, que é mesmo muito mau, é director de um banco de investimentos e não tem réstia de escrúpulos. O bom da fita, que é mesmo muito bonitinho, acordou há pouquinho de cinco anos em coma e não o fizeram extremamente inteligente. A boazinha da fita, que é mesmo muito deslavada, é tratadora de animais e passa a maior parte do tempo a descompensar por razões mais que compreensíveis.

O ponto de partida, a «ideia», se lhe quisermos chamar tanto, é simples: encaixar as principais «linhas da actualidade noticiosa» numa tradicional estória de amor aparentemente impossível. A forma como isto é feito deve mais à carpintaria que à escrita criativa e, talvez para não emaranhar ainda mais a trama, todo o potencial resto foi alvo de cortes que, até este momento, aparentam ser totais. As questões do sexismo, da deficiência/mobilidade, do endividamento dos consumidores e das sociabilidades remotas foram incluídas, embora de forma pouco mais que decorativa, mas as temáticas LGBTQISA e da imigração/pós-colonialismo/governação global, só para dar trezentos e setenta e quatro exemplos cintilantes, não estão lá. E, apesar de a boazinha da fita ser tratadora de animais, não os há amestrados.

Mas nem por isso Perfeito Coração deixa de ser uma produção ambiciosa. Com várias cenas de exterior gravadas na Suiça, alguns dos actores mais bem pagos do star system português e uma cenografia pobre de ideias mas sem as cabeças dos pregos à mostra, nota-se que se investiu ali muito dinheiro. As perguntas «porquê?», «para quê?» e «a quanto estava a clementina espanhola no Pingo Doce?» ocorrem várias vezes em simultâneo com as manifestações de opulência da telenovela, mas não esmaecem o brilho americano de cada uma das suas cenas. A realização não existe, há simplesmente umas câmaras e umas pessoas e uns adereços por ali. Os diálogos parecem ter sido escritos a pensar numa peça de escola básica dois vírgula três. O nível médio do trabalho dos actores, mesmo o daqueles a quem já se viu bastante melhor, é sofrível para os padrões televisivos portugueses. Ou seja, é anedótico para quaisquer outros padrões vigentes no Norte entalado entre os Urais e as Aleutas.

Contudo, e como já ficou advertido acima, o maior interesse da telenovela reside no argumento. Hesitante e esburacado, depois de somado aos restantes azares da produção, o argumento de Perfeito Coração testa, pelo menos seis vezes por episódio, a suspensão voluntária da descrença dos espectadores bem para além dos limites recomendados pela OMS. E é por aqui que Perfeito Coração pode vir a tornar-se um objecto fundamental para compreender o que aí vem depois de o ter sido, independentemente do que venha a ser. Depois desta telenovela, toda a relação do espectador (latu sensu) com as narrativas ficcionais, dinâmica e em permanente reconfiguração pelo menos desde os pais da igreja, fica impossibilitada de continuar a existir nos termos mais básicos e fundadores em que a sua sobrevivência assentou até aos dias de hoje. Eu próprio já dei por mim tentado a subscrever produtos financeiros de alto risco logo após ver um episódio de Perfeito Coração. Temo pelo que pode suceder a quem, como as crianças menores de seis anos deixadas em frente à televisão por pais biológicos irresponsáveis, disponha de uma artilharia hermenêutica inferior à minha.

Estes produtos marginais — estamos a falar da televisão portuguesa — e os seus efeitos não devem ser desprezados. Não faltam exemplos de objectos comparáveis que se sustentaram precisamente na sua aparente menoridade para adquirirem, por vezes décadas mais tarde e completamente fora de qualquer ilusão de controlo dos seus autores, a capacidade de suscitar uma releitura da realidade subsequente à exposição pública dos mesmos. Ou à exposição do público a eles, pois não raro tratam-se de produtos subliminar e imaterialmente tóxicos, com consequências ainda não totalmente conhecidas, como é hábito das substâncias que alteram para sempre o passado. É por isso que neste momento não sabemos nem podemos saber se, daqui a dez anos, estaremos ou não todos a viver no mundo entretanto feito possível, não por uma nova fé poética, mas pela inalação continuada do metano exalado de perfeita biomassa.

2009.12.07

Porque, para além do incómodo formal a que somos sujeitos – discordamos quanto às concordâncias, só para dar um exemplo menor –, há o problema da pertinência. Chegados ao final, somos sempre confrontados com a sensação de vácuo, de tempo malbaratado. Só não digo perdido porque o tempo, por razões que lhe escapam, não pode sê-lo. De que não só haveria muito mais a dizer sobre o assunto, como de que o que deveria ter sido dito não era aquilo. As bases da abordagem, o uso dado às fontes, coitadas, as opções metodológicas. Tudo. Nos casos felizes, tudo é nebuloso. Nos infelizes, incompreensível. Nos casos suicidários, tudo é absurdo. Ainda não percebeu – e talvez seja optimismo esperar que ainda venha a perceber – que escrever nem sempre ganha muito transitivado. Escrever chega, não é preciso escrever umas coisinhas.

2009.12.03

2009.12.01